(textura do meu amigo josé oliveira, esperando que se torne brevemente colaborador assíduo dos "vestígios")
A IDADE DO INVERNO
nos anos da AldaVêm árvores das terras todas, pelos dias de Novembro, para celebrar o aniversário do
inverno e proclamar a suprema Lebre como guardiã do século. O seu trono está
erguido no maior ventre e as pálpebras fervem ao som da liturgia. A humidade voalhe
nas veias, ateando bandeiras de bronze e as aves da prudência nidificam nos torsos
ocultos pelas nuvens.
É uma idade branca e rasa, que por vezes substitui a neve, e onde os livros dormem
nos dias frios, sonhando com as mãos das mães na terra. E de onde fogem os amantes
amarelos, enquanto a doçura dança com a sua pele moldada pelos relâmpagos.
Agora fervem as orações nos lábios da grande Lebre, na sua medula negra onde
escrevo dolorosamente, e escuto a gárgula que pousa devagar na minha língua.
Cavalos incessantes fazem um círculo, enquanto o mercúrio escorre das suas pupilas –
estão em plena adoração, na claridade dos frutos ameaçados pela sombra. São fieis à
suprema Lebre e dos seus rostos cai a cinza que oculta o horizonte.
Tento acenar-lhes, mas os lenços estão endurecidos. Adormeço por fim, entorpecido
pelas visões, estrangeiro dentro de mim e com os cabelos colados às sombras.
Expulso do coração os animais doentes. Não cessa a lucidez, a ignorância fria. Não
cessa a canção cega que conduz a tempestade.
Que os pássaros passem diante dos meus olhos e neles abram vastas fendas. E que o
esquecimento calcifique na minha boca, de onde caem sílabas negras.
Assim celebro a idade do inverno, com as árvores e a grande Lebre. Assim a luz
atravessa as minhas mãos e inicia a idade do ferro na garganta.
Ergo uma lápide nos pulmões: nestas veias enlouqueceram as mães. Mas agora é
tarde. Já voam as igrejas, e as mãos já sentem o crepúsculo.
Lembra-te: são estes os líquidos da velhice. Serás leal a eles pelos séculos todos.
josé oliveira