4.12.09

um dia suave de outono passou por aqui e disse olá



havia folhas de buganvília a invadir a entrada da casa em estranhos jogos com os remoinhos do vento e o som que faziam era o cenário ideal para quem quisesse assobiar melodias tristes
as melodias a que as pessoas chamam de tristes nem sempre o são
aliás, as melodias não são tristes nem alegres, as pessoas é que as fazem ser

eram sete e meia da tarde e o forno fumegava de bolos e pudins num cheiro tão intensamente guloso que era inevitável salivar

um dia suave de outono passou por aqui e disse olá com uma voz surpreendentemente cristalina

os sons os cheiros e os dias são o que são

29.11.09

lagos coloridos


eram longos os lagos coloridos onde se repetiam as histórias segredadas ao adormecer
as margens eram pantanosas e havia um caminho minado como sóis de agosto reflectidos sem que alguma vez ganhássemos coragem de o atravessar
ao cimo uma espécie de deserto muito brilhante acenáva-nos todas as manhãs e esse era o único alimento das nossas almas angustiadas
há quem diga que os sonhos têm sempre algo de fantástico mas a verdade é que não existem evidências de que os deuses e os demónios possam ser eternos aliados da insónia

27.11.09

A idade do inverno

(textura do meu amigo josé oliveira, esperando que se torne brevemente colaborador assíduo dos "vestígios")

A IDADE DO INVERNO

nos anos da Alda

Vêm árvores das terras todas, pelos dias de Novembro, para celebrar o aniversário do
inverno e proclamar a suprema Lebre como guardiã do século. O seu trono está
erguido no maior ventre e as pálpebras fervem ao som da liturgia. A humidade voalhe
nas veias, ateando bandeiras de bronze e as aves da prudência nidificam nos torsos
ocultos pelas nuvens.

É uma idade branca e rasa, que por vezes substitui a neve, e onde os livros dormem
nos dias frios, sonhando com as mãos das mães na terra. E de onde fogem os amantes
amarelos, enquanto a doçura dança com a sua pele moldada pelos relâmpagos.

Agora fervem as orações nos lábios da grande Lebre, na sua medula negra onde
escrevo dolorosamente, e escuto a gárgula que pousa devagar na minha língua.
Cavalos incessantes fazem um círculo, enquanto o mercúrio escorre das suas pupilas –
estão em plena adoração, na claridade dos frutos ameaçados pela sombra. São fieis à
suprema Lebre e dos seus rostos cai a cinza que oculta o horizonte.

Tento acenar-lhes, mas os lenços estão endurecidos. Adormeço por fim, entorpecido
pelas visões, estrangeiro dentro de mim e com os cabelos colados às sombras.

Expulso do coração os animais doentes. Não cessa a lucidez, a ignorância fria. Não
cessa a canção cega que conduz a tempestade.

Que os pássaros passem diante dos meus olhos e neles abram vastas fendas. E que o
esquecimento calcifique na minha boca, de onde caem sílabas negras.

Assim celebro a idade do inverno, com as árvores e a grande Lebre. Assim a luz
atravessa as minhas mãos e inicia a idade do ferro na garganta.

Ergo uma lápide nos pulmões: nestas veias enlouqueceram as mães. Mas agora é
tarde. Já voam as igrejas, e as mãos já sentem o crepúsculo.

Lembra-te: são estes os líquidos da velhice. Serás leal a eles pelos séculos todos.

josé oliveira

25.11.09

dedos doridos - uma vingança

doíam-me de forma indescritível os dedos nas longas noites de exaustão mascarada de festa em que loucos embriagados formavam multidões decadentes no bocejo do suor a passo de exilado e na dança alienante abraçada por um inaudível zumbido que doía tanto ou mais do que os meus dedos

ainda bem que te queimei, quase intacta mas intocável, com as cordas oxidadas de velhas e da humidade da adega e as marcas indeléveis dos meus dedos doridos

30.9.09

caça

contaram-nos sobre aspirações e inspirações
acontecimentos imaginários ou talvez não
em roda de amigos
pesadelos descontinuados que a fervura fez encruar
ao cair a acidez da tarde
contaram-nos sobre a penugem e a penumbra
e a penetração bizarra dos espaços interditos disparou
em múltiplas direcções
como uma saraivada de saliva e de sangue
ao cair dos pássaros moribundos
sopraram-nos ao ouvido como vendavais íntimos
e dissemos boa noite com vontade de ir para casa
brindaram-nos com excelentíssimos silêncios em campo aberto
e ficámos à espera calmamente e alerta
aspirando pela inspiração que nos leve a escrever um hino à leitura

20.8.09

finisterra

fim de tarde
em silêncio
em religiosos movimentos
religiosa quietude
de contemplação
do sol
lá longe
onde a terra termina
termina
o dia também
o silêncio
o oceano absorve o que resta da luz
o que resta dos pensamentos
duma multidão enfeitiçada

29.5.09

na curva da estrada

eu podia desaparecer na curva da estrada e ninguém dava por isso
alguém olhava para o lado e quando voltasse a mexer a cabeça, pluf, já está
como quando os cães urinam no tapete
ou os arrotos saem sem querer e a gente diz um som imperceptível com o perdão engasgado no meio do pescoço
nessas alturas fala-se de mistério e há arrepios de jazigo na noite duma adolescência aparvalhada de intranquilidade onde percorria as partes mais aliciantes do corpo das raparigas com a sensação duma interminável humidade nos dedos...
e os dedos estalam, pluf, já está
aparece ou desaparece qualquer coisa
o feitiço, a magia, o encantamento, os desígnios do além, são coisas que se dizem mas eu nunca soube ao certo o que significam
assim como a poesia
a filosofia
a metafísica
a porcaria e a inutilidade de toda essa conversa
e tudo o que soa a retórica de xarope
como violinos de titanic ou flautas de pã dos incas fardados à la minuta
na feira do fim do mês